Novo Modelo

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Monitores 2013.2

domingo, 18 de agosto de 2013

CURIOSIDADE

“FAZER DIAGNÓSTICO É FAZER JULGAMENTO”

Imagem: anamariabruni.blogspot.com

Ao discorrer sobre erros diagnósticos, Celmo Celeno Porto e Fábio Zicker colocam a seguinte afirmação: “Fazer diagnóstico é fazer julgamento”. Diante disso, relembram os princípios de Hutchinson, enunciados do começo do século, para servir de apoio no julgamento dos dados clínicos e do resultado dos exames complementares na prática médica:

1.       Não seja demasiado sagaz

2.       Não tenha pressa

3.       Não tenha predileções

4.       Não diagnostique raridades

5.       Não tome um rótulo por diagnóstico

6.       Não tenha prevenções

7.       Não seja demasiado seguro de si

8.       Não diagnostique simultaneamente duas doenças no mesmo paciente

9.       Não hesite em rever seu diagnóstico, de tempo em tempo, nos casos crônicos.

Referência:

PORTO, Celmo Celeno; PORTO, Arnaldo Lemos. Semiologia médica. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2011.

 
CASO CLÍNICO II

Veja, neste caso clínico, que a queixa principal (“dor abdominal”) é a mesma do caso passado.

Anamnese:

Identificação: Nome: MSC; Idade: 70 anos; Sexo: Feminino; Etnia: Caucasiano; Religião: Espírita; Profissão: aposentada; Estado civil: Viúva; Naturalidade: Curitiba-PR; Residência: Bigorrilho – Curitiba; Referência: o próprio paciente.

Queixa Principal: “Dor abdominal”.

 História da Moléstia Atual: Paciente refere ter iniciado há 5 horas com dor abdominal súbita em região epigástrica e periumbilical, intensa, não irradiada, tipo cólica, contínua, sem medidas de alivio ou piora, associada a dois episódios de vômito e enterorragia. Refere nunca ter sentido dor semelhante anteriormente e nega algum gatilho para a crise álgica.

 História Mórbida Pregressa: HAS, IAM há 7 dias com realização de cateterismo e angioplastia. Nega outros internamentos/cirurgias anteriores e alergias. Em uso de: AAS 100mg, enalapril 20mg, atorvastatina 80mg, atenolol.

 História Mórbida Familiar: refere que mãe possui HAS e pai infartou aos 50 anos.

 Condições e Hábitos de Vida: foi tabagista durante 40 anos(1 maço/dia), parou há 5 anos. Nega etilismo.

Perfil Psicosocial: Mora sozinha em uma casa nos fundos do quintal da filha. Passa o dia todo em casa e não pratica atividades físicas.

 Revisão de Sistemas: Não há outras queixas pertinentes.

 Exame físico:

Geral: paciente em MEG, corada, hidratada, LOTE, fácies álgica.
PA: 100X70, Pulso: 104, FR: 18, T: 38,1oC
Aparelho respiratório: expansibilidade e FTV normais, com som claro atimpânico à percussão, MV + bilateralmente, sem ruídos adventícios.
Aparelho cardiovascular: bulhas cardíacas rítmicas e normofonéticas. Sem sopros.
Abdome: abdome distendido, ruídos hidro-aéreos diminuídos, som timpânico à percussão, rígido, doloroso a palpação superficial e profunda de epigástrio e região periumbilical, descompressão brusca dolorosa.
Membros: ausência de edema, perfusão normal e pulsos presentes.

Perguntas:

1.  Quais são as hipóteses diagnósticas diante deste quadro clínico?

2.  Quais exames complementares podem ajudar neste contexto ?


Resposta:

1.   Hipóteses diagnósticas

a.   Isquemia intestinal

b.   Pancreatite

c.    Víscera perfurada (úlcera péptica),

d.   Obstrução intestinal aguda

e.   Infarto do miocárdio

f.     Aneurisma dissecante de aorta

2.   Exames complementares:

a.   Hemograma: leucocitose (>20.000)

b.   CPK-MB: aumentada

c.    Amilase e lipase: podem estar aumentadas

d.   Gasometria: acidose metabólica

e.   ECG: ausência de arritmias. Presença de alterações sugestivas de infarto miocárdico antigo.

f.     Raio X abdome: edema de parede intestinal

g.   Angiografia: obstrução em artéria mesentérica superior
Diagnóstico: ISQUEMIA MESENTÉRICA ARTERIAL OBSTRUTIVA

A isquemia intestinal é a lesão isquêmica dos tecidos quando há perfusão insuficiente para as tecidos intestinais. É incomum, mas sua mortalidade chega a ser maior de 50%. A isquemia pode ser de três tipos: mesentérica arterial obstrutiva, mesentérica não obstrutiva e trombose venosa mesentérica. No presente caso vamos nos ater a isquemia mesentérica arterial obstrutiva (IMAO), que resulta da interrupção do fluxo sanguíneo por um êmbolo ou trombose progressiva da via arterial que irriga o intestino. Os êmbolos vêm do coração em 75% dos casos.

Os fatores de risco para isquemia arterial aguda incluem fibrilação atrial, infarto agudo do miocárdio recente, cardiopatia valvar, cateterização cardíaca ou vascular cardíaca.

A IMAO manifesta-se com dor abdominal aguda intensa, constante, desproporcional as anormalidades apresentadas ao exame físico, associada à náusea, vômito, diarreia transitória e fezes sanguinolentas. Ao exame físico pode apresentar leve distensão abdominal e diminuição dos ruídos peristálticos. Na evolução, pode progredir com peritonite e colapso cardiovascular.

Os exames complementares que podem contribuir com o diagnóstico são os laboratoriais (hemograma completo, bioquímica sérica, perfil de coagulação, gasometria, amilase, lipase, ácido láctico, tipo sanguíneo e prova cruzada e enzimas cardíacas), eletrocardiograma (arritmia? Pode ser a fonte do êmbolo), radiografias abdominais (edema da parede intestinal, ar/perfuração?), tomografia computadorizada, angiografia mesentérica, ecodoppler mesentérico.

Referências:

HARRISON, Tinsley Randolph; FAUCI, Anthony S. Harrison manual de medicina. 17. ed. Porto Alegre: AMGH Ed., 2011.

Virgini-Magalhães CE, Mayall MR. Isqueuemia mesentérica. Revista Hospital Universitário Pedro Ernesto. 2009;8(1):70-80

 
                                             
                                               Dâmia Kuster Kaminski Arida

terça-feira, 13 de agosto de 2013




Propedêutica 1: Anamnese

CURIOSIDADE



O sinal de Giordano não é utilizado nos países de lingua inglesa, onde é conhecido como Murphy renal. Na Polônia é conhecido como sinal de Goldfram, como descrito pelo ilustre neurocirurgião polonês Samuel Wulfowicz Goldfram.
A origem de Giordano (1964~1954) é italiana e a medicina francesa adotou o seu nome para o sinal. A medicina portuguesa e brasileira derivam da francesa, por isso ambos os países utilizam o mesmo nome.
O sinal de Giordano ou a punhopercussão lombar é um fraco golpe com a região hipotenar da mão que pode desencadear uma dor intensa caso haja distensão da capsula renal. A distensão é presente em pielonefrite e hidronefrose principalmente. A Hidronefrose pode estar presente em litíase renal pois a pedra "passa rasgando" o ureter e causa edema e estase de urina.

Dica: Pequena dor não significa Giordano positivo, a dor é intensa e totalmente desproporcional a força do golpe. O paciente que queixa-se de pequena dor principalmente em Giordano bilateral não tem o sinal positivo.

CASO CLÍNICO

Anamnese:

Identificação: A.I.J 45 anos, masculino, negro, natural e residente de Curitiba, trabalha no MC Donalds.

Queixa principal: “Muita dor nas costas”

HMA: ILICIDAS:

Paciente refere que há 2 horas sente dores das costas até o testículo direito, de fortíssima intensidade, tipo pontada, sem alívio ou piora.

HMP: DOIDAMT:

Nega hipertensão, diabetes, asma, alergias, nega cirurgias, nega transfusões.

HMF:

Pai falecido de infarto agudo do miocardio (IAM) aos 65 anos. Mãe falecida de IAM aos 50, sem irmãos.

CHV: MAFATES:

Mora em uma casa de alvenaria. Bebe álcool na quantia de ¼ de garrafa de destilado por dia. Ao questionário CAGE respondeu positivamente que precisa “firmar a mão” de manhã cedo. Nega uso de tóxicos. Admite que bebe refrigerante escondido, quase 2 litros por dia.

Quando questionado sobre o hábito de fumo disse fumar 1 cigarro a cada semana há 2 anos. Porem quando perguntado sobre o passado disse ter fumado desde os 15 anos de idade 1 maço de cigarro ao dia e parado há 4 anos, agora retomou o hábito há 2 anos.

PPS: FRETSPI:

Situação familiar estável com esposa. Situação financeira “suficiente”.

RS:

Não declara novas queixas.

Exame físico:

Concluiu ausência de alterações ou dor a mobilização testicular, aumento da sensibilidade a dor atual por leve punhopercussão em dorso direito. (sinal de Giordano)

PERGUNTAS

Existe dor irradiada neste caso? De onde para onde? (percebam que o paciente não identifica uma dor irradiada como sendo irradiada)

Epidemiologicamente falando. Em qual idade passa a ser relevante uma história pregressa de mortalidade de IAM na família para indicar maior risco do paciente?

Cientificamente falando. Como saber se o questionário CAGE trás informações verdadeiras? Quais são as evidências científicas sobre o assunto?



domingo, 11 de agosto de 2013

CURIOSIDADE

QUAL DEVE SER O PERFIL DO FORMANDO EGRESSO/PROFISSIONAL?

As Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) do Curso de Graduação em Medicina definem  como perfil do médico egresso como um profissional:

“Médico, com formação generalista, humanista, crítica e reflexiva. Capacitado a atuar, pautado em princípios éticos, no processo de saúde-doença em seus diferentes níveis de atenção, com ações de promoção, prevenção, recuperação e reabilitação à saúde, na

perspectiva da integralidade da assistência, com senso de responsabilidade social e compromisso com a cidadania, como promotor da saúde integral do ser humano”.


Referência:


CASO CLÍNICO 1
Anamnese:

Identificação: Nome: MFC; Idade: 45 anos; Sexo: Masculino; Etnia: Caucasiano; Religião: Católico; Profissão: vendedor ambulante; Estado civil: Casado; Naturalidade: Curitiba-PR; Residência: bigorrilho – Curitiba; Referência: o próprio paciente.

Queixa Principal: “Dor na barriga”.

História da Moléstia Atual: Paciente refere ter iniciado há 12 horas com dor adominal em epigástrio e região periumbilical, intensa, irradiada para região dorsal, tipo lancinante, contínua. Piora em decúbito dorsal e alivia ao sentar-se com o tronco e joelhos fletidos. Associada a náusea, vômito, distensão abdominal. Refere que o início do quadro álgico foi logo após o almoço (feijoada + 10 latas de cerveja). Nega outros episódios semelhantes anteriormente.

História Mórbida Pregressa: Nega doenças da infância ou comorbidades atuais. Refere cirurgia de colecistectomia há 5 anos devido a cálculo em via biliar. Nega outros internamentos, cirurgias e alergias. Não faz uso regular de medicamentos.

 História Mórbida Familiar: nega comorbidades na família.

 Condições e Hábitos de Vida: Tabagista há 25 anos (10 cirragos dia), nega etilismo.

 Perfil Psicosocial: Mora com a esposa. Pratica exercícios físicos apenas durante o seu trabalho (caminha trechos como vendedor ambulante – 5km por dia). Tem como ponto de apoio a esposa e seus dois filhos.

Revisão de Sistemas: Não há outras queixas pertinentes.

 Exame físico:

 Geral: paciente em mau estado geral, pálido, anictérico, hidratado, LOTE, angustiado, com pele pegajosa, com tronco e joelhos fletidos para alívio da crise álgica.

PA: 110X70, Pulso: 110, FR: 22, T: 38,1oC

Aparelho respiratório: paciente taquipnéica, expansibilidade e FTV normais, com som claro atimpânico à percussão, MV + bilateralente, sem ruídos adventícios.

Aparelho cardiovascular: bulhas cardíacas rítmicas e normofonéticas. Sem sopros.

Abdome: abdome globoso (distensão?), ruídos hidro-aéreos diminuídos, som timpânico à percussão, rígido, doloroso a palpação superficial e profunda de epigástrio e região periumbilical, descompressão brusca dolorosa.

Membros: ausência de edema, perfusão normal e pulsos presentes.

Pergunta:

1)   Diante deste quadro clínico, quais os diagnósticos diferenciais?

2)   Quais exames complementares poderiam ajudar na confirmação diagnóstica?
 

Resposta:

1)   Devem-se considerar os seguintes diagnósticos diferenciais: víscera perfurada (úlcera péptica), colecistite aguda e cólica biliar, obstrução intestinal aguda, oclusão vascular mesentérica, cólica renal, infarto do miocárdio, aneurisma dissecante de aorta, vasculites, pneumonias, cetoacidose diabética.

2)   Os exames complementares que podem contribuir com o diagnóstico são:

Laboratoriais:

a.   Hemograma (pode apresentar queda da série vermelha e padrão infeccioso com leucocitose e desvio a esquerda)

b.   Amilasemia (> 5X acima do valor normal, eleva-se precocemente)

c.    Lipasemia (eleva-se tardiamente), calcemia (valor prognóstico)

d.   Glicemia (pode estar elevada).

Imagem:

a.   Ultra-sonografia (mostra alterações pancreáticas e ajuda a investigar a etiologia pelo estudo das vias biliares),

b.   Tomografia computadorizada:
 

Imagem: spenzieri.com.br
 
DIAGNÓSTICO: PANCREATITE AGUDA DESENCADEADA POR EXCESSO DE ÁLCOOL E REFEIÇÃO PESADA.
É um processo inflamatório agudo do pâncreas. A principal etiologia é a colelitíase (30-60%), mas pode ter outras causas como uso de álcool, hipertrigliceridemia, após colangiopancreatografia retrógrada endoscópica, traumatismo, pós-operatório, alguns medicamentos, disfunção do esfíncter de Oddi, hipertrigliceridemia, infecções (caxumba, citomegalovírus), entre outras.
Os mecanismos pelos quais estas condições desencadeiam inflamação pancreática ainda não são bem conhecidos, mas a teoria mais aceita é a da autodigestão. Há uma ativação intra-pancreática de enzimas digestivas e uma quimioatração e ativação de neutrófilos e macrófagos no pâncreas, gerando uma reação inflamatória. As enzimas proteolíticas ativadas, especialmente a tripsina, digerem tecidos pancreáticos e peripancreáticos e ativam outras enzimas como a elastase e fosfolipase A2. Isto resulta na digestão de membranas celulares, proteólise, edema, hemorragia intersticial, dano vascular, necrose. A lesão e morte celular liberam peptídeos da bradicinina, substâncias vasoativas e histamina. Isto gera vasodilatação, aumento de permeabilidade vascular e edema, podendo afetar diversos órgãos. Como consequência deste processo, pode haver Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica, Síndrome da Angústia Respiratória do Adulto e Falência de Múltiplos Órgãos.
Clinicamente, a pancreatite aguda geralmente se apresenta com uma dor abdominal em epigástrio e região periumbilical, intensa, podendo ser irradiada para costas, tórax, flancos e partes inferior do abdome tipo lancinante, contínua, com piora em decúbito dorsal e alívio ao sentar-se com o tronco e joelhos fletidos, associada a náusea, vômito, distensão abdominal (devido a hipomotilidade gástrica e intestinal e peritonite química).
Ao exame físico, o paciente apresenta-se angustiado, com uma febre baixa, taquicardia, hipertensão ou hipotensão (em casos mais graves), hipersensibilidade abdominal, rigidez muscular, diminuição ou ausência de ruídos hidroaéreos intestinais. Pode ter icterícia quando há edema da cabeça do pâncreas com compressão de porção do colédoco. Em graus mais avançados de gravidade, pode-se observar coloração azul pálido ao redor do umbigo (sinal de Cullen) ou coloração azul-vermelho-purpura ou verde-castanha dos flancos (sinal de Turner). São resultado de hemoperitônio e catabolismo tecidual de hemoglobina, respectivamente. Alterações no exame torácico podem estar presentes (derrame pleural, atelectasia).
                               Dâmia Kuster Kaminski Arida
Referências:
HARRISON, Tinsley Randolph; FAUCI, Anthony S. Harrison manual de medicina. 17. ed. Porto Alegre: AMGH Ed., 2011.
PORTO, Celmo Celeno; PORTO, Arnaldo Lemos. Semiologia médica. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2011
TOY, Eugene C.; PATLAN JR, John T. Casos clínicos em medicina interna. 3.ed. Porto Alegre: AMGH Ed., 2011.
                                               

Semiologia I: Hematologia

CURIOSIDADE:

O que é pica? Qual a origem do termo?

Pica é definida como a ingestão persistente de substâncias não nutritivas, ou seja, a perversão alimentar como exemplos mais clássicos terra ou argila (geofagia) e gelo (pagofagia). Dentre os fatores etiológicos desse transtorno, estão a deficiência de ferro e zinco. 
Pássaro Pega ou Pica no latim.
A palavra pica deriva do nome em latim do pássaro pega (magpie, em inglês), notório pelo hábito de reunir objetos variados em seu ninho para saciar sua fome. Pássaro de hábitos alimentares peculiares caracteriza-se por não discriminar substâncias nutritivas de não nutritivas.
A pica tem sido relatada desde o século V a.C., quando Aristóteles e Hipócrates descreveram a pica e orientavam a respeito do suposto perigo em ingerir gelo. Nessa mesma época, o médico romano Soranus descreveu a pica como um alívio aos desejos e sintomas gestacionais, que se iniciam no 40º dia da gravidez. O primeiro caso documentado de pica refere-se a uma gestante que ingeria terra e foi descrito por Aetius, médico da corte de Justiniano I de Constantinopla. No século X, Avicena, considerado o “Príncipe dos Médicos”, orientava que deficiências nutricionais que poderiam levar a comportamentos de pica poderiam ser supridas se o ferro fosse embebido no vinho. No século XVIII, ao divulgar que comia argila, o sultão do Império Otomano disseminou o costume entre europeus, que o adotaram, acreditando ser essa uma prática saudável.

Referência Bibliográfica:
KACHANI, A. T.; CORDÁS, T. A. Da ópera-bufa ao caos nosológico: pica. Rev Psiq Clín, v. 36, n. 4, p. 162-9, 2009.


CASO CLÍNICO I:

ANAMNESE

ID: D.Z.D, 54 anos, feminino, branca, natural e residente de Curitiba-PR, doméstica.
QP: “Cansaço e dificuldade para engolir”
HMA: Paciente iniciou astenia há 3 anos, de duração constante e de grande intensidade com piora progressiva nos últimos 3 meses. Refere também dispneia aos médios esforços, sem ortopneia, palpitações de curta duração pelo menos uma vez ao dia e ingestão de gelo frequentemente. Nega pirose ou dor epigástrica, regurgitação, melena, hematoquezia e alteração no hábito intestinal.
Afirma também disfagia há 1 ano, localizada em base de pescoço, inicialmente para líquidos e posteriormente para alimentos sólidos, de duração intermitente com períodos de remissão de até 1 semana, com piora no último mês sem fator de alívio. Como sintomas associados refere emagrecimento com anorexia de 4 kg em 6 meses. Nega odinofagia, fraqueza muscular proximal, artralgias, febre, fenômeno de Raynauld e fotossensibilidade.
HMP: Nega operações e internamentos anteriores. Em uso de enalapril 10 mg/dia para HAS. Nega DM, reumatismo e dislipidemia. Nega também alergias e transfusões. Menopausa há 5 anos.
HMF: Pai faleceu aos 85 de IAM. Mãe aos 66 anos de AVE. Nega reumatismo ou câncer na família.
CHV: Nega hábito de chimarrão ou bebidas quentes, alimentação balanceada, contudo em pequena quantidade. Nega tabagismo e etilismo.
RS: sp.

EXAME FÍSICO:

GERAL: BEG, LOTE, anictérica, hidratada, hipocorada (++/4+). PA: 120-85 mmHg; pulso: 108 bpm; FR: 28 rpm; T: 36,6°C.
PELE: Palidez de pele e mucosas. Presença de queilite angular, moderada alopécia, unhas quebradiças e coilinóquia.
C/P: Escleras anictéricas, conjuntivas hipocoradas (++/4+), amplitude normal de abertura da boca, língua despapilada, vasos sublinguais cheios. Traqueia móvel e centrada, tireoide normal. Ausência de linfonodomegalia. Jugulares não ingurgitadas.
CPP: MV + bilateralmente e simétricos sem RA.
ACV: BCRNFSS
ABDÔMEN: globoso, flácido com RHA presentes. Hepatimetria de 7 cm em LHCD. Espaço de Traube livre. Som timpânico a percussão. Ausência de dor ou visceromegalia a palpação superficial e profunda.

EXAMES COMPLEMENTARES:

Hemácias: 4.060.000/L
Leucócitos: 5.600
Plaquetas: 595.000
Hb: 8.2 g/dL
VCM: 77 fL
HCM: 25 pg
CHCM: 30 g/dL
Perfil do Ferro:
Ferro sérico: 25 (50-150)
Capacidade total de ligação ao ferro (TIBC): 400 (300-360)
IS: 10% (20-50%)
Ferritinina: 4 (12-150)

Qual provável diagnóstico?


Quais as principais hipóteses diagnósticas para disfagia?


RESPOSTA AO CASO CLÍNICO I:

O diagnóstico é anemia ferropriva com presença de sintomas e sinais clássicos como: astenia, dispneia aos esforços, palpitações, pica (ingestão de gelo) muito característica desse tipo de anemia, palidez cutâneo-mucosa, glossite atrófica, queilite angular, unhas quebradiças, coilinóquia (unha em colher) e alopecia. É importante sempre tentar buscar a causa base da anemia ferropriva. Na idade da paciente (pós-menopausa) sempre pensar em sangramentos do TGI como esofagite, gastrite ou úlcera e câncer de cólon. Mesmo negando sintomas específicos associados a essas doenças, é necessário realizar uma colonoscopia, pois câncer de cólon direito ou de ceco são silenciosos e assintomáticos. Em mulheres na pré-menopausa considerar hipermenorreia e crianças e adolescentes demanda aumentada pelo crescimento ou sangramento GI por parasitas.
Nos exames laboratoriais, percebe-se uma anemia microcítica e hipocrômica, dando a possibilidade de quatro causas: ferropriva, doença crônica, talassemia ou sideroblástica. O principal diagnóstico diferencial é com anemia de doença crônica, produtoras de IL-1, IL-6, TNF como doenças infecciosas/inflamatórias crônicas ou neoplasias. Nesse caso, o perfil de ferro as diferencia. Na anemia ferropriva há uma diminuição no ferro sérico, índice de saturação, ferritina e aumento na TIBC, pois como não há ferro no organismo, logo a capacidade de ligação total ao mesmo está aumentada. Em 15% dos pacientes há trombocitose.
Por fim, a disfagia da paciente leva nos a pensar na síndrome de Plummer-Vinson ou Pateson-Kelly, que sempre deve ser suspeitada no paciente com anemia intensa com dificuldade para deglutir. É caracterizada pela tríade: disfagia alta associada a diafragma hipofaríngeo (membrana esofágica) e anemia ferropriva.  Sendo necessários exames como EDA ou estudo radiográfico do esôfago para confirmá-la. Geralmente não resolve com a correção da anemia ferropriva, necessitando de terapia endoscópica. É necessário afastar também diagnósticos diferenciais como dermato/polimiosite (disfagia alta), esclerodermia (disfagia baixa) ou até mesmo CA de esôfago

José Vitor Martins Lago

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Nova organização

A partir de agora os casos clínicos serão organizados por categorias em "marcadores". Basta fazer a busca ou clicar nos links para que sejam exibidos todos os posts que foram marcados pelos redatores como pertencendo a uma categoria.
As categorias principais serão Propedêutica 1, Propedêutica 2, Semiologia 1, Semiologia 2 e Casos Clínicos.
Também poderão ser buscados pelo assunto das aulas.


Monitores 2013.2

domingo, 31 de março de 2013


Abertura 2013.1:

A partir de hoje, iniciamos mais um semestre de atividades das monitorias de Propedêutica/Semiologia, correlacionadas aos professores do Grupo de Estudos em Semiologia e Propedêutica (GESEP) da Faculdade Evangélica do Paraná. Contudo, orientados e supervisionados, em especial, pela Professora Cecília Vasconcelos Krebs, especialista em Clínica Médica/Hematologia e integrante do corpo clínico do Hospital Universitário Evangélico do Paraná.
Basicamente, cada monitor atualiza sua aba a cada semana até domingo. A cada semana será postado uma curiosidade e um caso clínico relacionado com a matéria atual e será publicada a respectiva resposta/explicação na outra semana. Além disso, no próximo bimestre será realizada uma salinha à beira do leito para cada disciplina com objetivo de reforçar o exame físico com horário a estabelecer junto aos alunos.
Nessa página principal, publicaremos algumas informações/vídeos/casos interativos interessantes. Também ao lado, existem alguns “Quizes”, aos quais as respostas sempre estarão no canto inferior esquerdo desta página. 
Para abrir o semestre com o pé direito, a Prof. Cecília Vasconcelos decorre sobre a importância da Propedêutica/Semiologia para a profissão Médica:

          "É com grande honra que reiniciamos as atividades de nosso blog.
Os monitores da Propedêutica e Semiologia fizeram e continuarão fazendo um excelente e belo trabalho na área de ensino da Medicina.
Este blog tem os objetivos de (1) deixar nossa matéria mais atrativa – na linguagem que os alunos entendem; (2) discutir casos clínicos do cotidiano e também as raridades; (3) enfatizar a entrevista médica; (4) realizar um bom e adequado exame físico.
Um médico, que saiba realizar uma boa entrevista médica e um adequado exame físico é muito raro hoje em dia.  A anamnese e o exame físico são as armas mais poderosas para que se faça o diagnóstico correto. E estas armas, não são todos os profissionais que a têm. Só as têm, quem pode. E nossos alunos terão.
Sejam bem vindos!
Prof. Cecília Vasconcelos."

João Elias Ferreira Braga, 5° período (Propedêutica I)
Gonçalo Rebello, 9° período (Propedêutica II)
Dâmia Kuster Kaminski Arida, 8° período (Semiologia I)
José Vitor Martins Lago, 8° período (Semiologia II)